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O laicismo militante: os valores

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 31.03.10

O laicismo militante iniciou a sua acção com a evangelização, espalhada convenientemente na informação oficial. Primeiro, é sempre subrepticiamente, depois passa a ser às claras, porque não? Na fase subreptícia, trata-se de preparar o terreno para a implantação das suas ideias e valores. Aí vão eles:

- o laicicismo militante é amoral, tudo vale, é tudo a mesma coisa, tudo é relativizável;

- o laicismo militante mistura tudo, a vida e a morte, promovendo a segunda; o amor e o sexo, promovendo o segundo; a autonomia e a obediência canina, promovendo a segunda; a liberdade e a agressividade, promovendo a segunda. Morte (aborto, eutanásia, etc.); sexo (nos filmes e telenovelas, nas reportagens sobre alternativas criativas, sex shops, sexólogos modernaços a glorificar a sex addiction); obediência canina a um grupo (nos partidos de esquerda; na blogosfera; etc); agressividade (verbal, podendo tornar-se física).

- o laicismo militante não reconhece uma entidade superior, uma inteligência ou ideia superior ou inspiração divina, ou uma expressão divina, ou mesmo uma dimensão divina, sagrada, da vida. Sendo assim, a vida é apenas biológica, animal, descartável. Sendo assim, um projecto-vida, com todos as potencialidades vitais, pode ser abruptamente interrompido, porque não é uma pessoa. Sendo assim, uma vida perto do fim pode ver a sua morte antecipada, para adquirir a dignidade, mesmo que ninguém se preocupe em viver com dignidade.

 

Outro efeito perverso do lugar ausente de Deus. Esse lugar vago pode ser ocupado por qualquer um, um louco, um megalómano, até um terrorista. Tanto faz. De novo, proponho a leitura de "Falsos Deuses" de Arno Gruen. Está lá tudo sobre a linguagem do poder. Assim como a leitura d' "A Loucura da Normalidade" e d' "A Traição do Eu". São até as leituras mais oportunas numa fase tão difícil da nossa vida colectiva, a nível moral sobretudo, dos valores que nos permitiram conviver uns com os outros de forma tolerável. É que a partir daqui vejo mais muros e fronteiras a desenhar-se entre nós, do que pontes.

 

Os seus efeitos já estão aí: na agressividade crescente que vemos nas notícias e que já invadiu todos os territórios, na criminalidade violenta, na desorientação geral, na troca de papéis, no caos iminente. Mas o que se podia esperar de um mundo sem modelos nem referências, em que se idolatram jogadores de futebol, actores de telenovelas, os ricos e famosos, essa cultura pueril, desligada da realidade e da vida quotidiana, nesse carrocel demente?

Este processo da erosão progressiva de valores e referências já se tinha iniciado na fase do cavaquismo, verdade seja dita. Era o tempo do enriquecimento como garantia de estatuto social, para muitos o enriquecimento rápido, privilegiando os sinais de ostentação. Mesmo que consideremos enriquecer como um objectivo aceitável e até legítimo, se não for acompanhado de outras bases que não sejam a mais superficial e artificial de todas, a imagem pública, temos a promoção de uma cultura cada vez mais vazia e pueril. E o terreno propício à promoção geral do novo-riquismo que hoje, em plena cultura pueril da esquerda modernaça, é mais do que suficiente para aceder à "nova elite". Acrescentando, se possível, a capacidade, muito actual, de "abrir portas", mais ou menos o equivalente a S. Pedro no céu, o porteiro da finança e da fatiazinha do rendimento público. É outra mais-valia importante no perfil do elemento da "nova elite".

 

E é neste mundo que a extrema-esquerda mais agressiva aderiu ao ataque à Igreja, símbolo mais elevado de valores seculares europeus, que têm inspirado e estruturado a nossa convivência como comunidade. Sim, a sua colaboração inestimável no ataque à Igreja, porque não percebe, nem quer perceber, que está a contribuir para a barbárie. É este o seu grande paradoxo, o seu grande equívoco. Mas não é este o seu único grande paradoxo, o seu grande equívoco. O pior talvez seja mesmo o do multiculturalismo, para defender a invasão cultural e religiosa do islamismo mais ortodoxo e menos tolerante na Europa. E é fácil papaguear que só a extrema-direita tem atitudes intolerantes em relação à imigração. Isto não é verdade. A atitude é completamente diversa.

Imagine-se!, colocou tudo no mesmo plano, misturou tudo, passou por cima da intolerância islâmica, sobretudo a situação das mulheres, defendeu o seu direito de impor a sua cultura à Europa com o argumento do multiculturalismo, e virou os mísseis para a instituição que mantém ainda as bases dos valores cristãos, a base da nossa forma de convivência mútua, no respeito e tolerância: a Igreja.

 

A Europa tem sido demasiado permeável e permissiva, é só isso. A sua cultura ancestral, os seus valores tradicionais, a sua base não pode ser questionada a favor da instalação do caos e da barbárie.

Surpreendentemente, esta preocupação nem está devidamente representada politicamente pelos gestores do poder europeu, os burocratas, que ainda não perceberam (ou não nos querem dizer) que Europa nos andam a preparar.

E é nos pormenores que vou baseando esta conclusão: pela indiferença com que olham para produtos medíocres como o PEC português, que só criam pobreza e novos escravos, e pela surpreendente aquisição, para o Banco Central, do nosso zombie de estimação. Estou até com um péssimo pressentimento. Vamos ver muita ficção também surgir dali nos próximos tempos. E o cidadão europeu que se cuide, pois os burocratas não o consideram na equação, a não ser como contribuinte, porque nem sequer o consideram eleitor.

 

 

publicado às 13:55

"As eleições do PSD interessam ao CDS?"

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 25.03.10

Amanhã os militantes do PSD vão decidir qual dos candidatos será o seu próximo presidente , muito provavelmente, o próximo primeiro-ministro.

 

No Suction With Valche©k, Eduardo Nogueira Pinto coloca uma pergunta interessante: As eleições do PSD interessam ao CDS?

 

Vou replicar o post na sua totalidade porque o achei muito interessante e perspicaz. Aliás, ainda é rara no país esta dimensão da análise política, que vai além de vantagens imediatas (e aí a sua conclusão seria diferente), para um plano que se projecta no tempo e que prevê tornar-se muito mais vantajoso para todos os envolvidos, e sobretudo para o próprio país. É, pois, uma lufada de ar fresco no bafio insuportável da maioria das análises políticas.

O autor analisa as duas grandes motivações do CDS, naturais e legítimas: expandir-se (e será também à custa do PSD), ou construir um compromisso. E qual a que deve predominar neste momento, relativamente à sua preferência por um dos dois candidatos. Por outras palavras, qual é o candidato preferível para o CDS?

 

Aí vai: 

 

  No essencial, há duas formas possíveis de o CDS olhar para o PSD: como o concorrente directo cujo eleitorado interessa ir conquistando ou como uma condição natural e (para já) necessária para chegar ao poder.

 

Nenhuma destas abordagens é absolutamente certa ou errada; e quem já tenha defendido a primeira não está de modo algum impedido de, em diferente contexto, defender a segunda. A bondade de cada uma depende sempre de uma análise caso a caso, que tenha em atenção as circunstâncias políticas do país, o objectivo imediato do partido na altura em que se propõe pô-la em prática e, claro, a existência ou não de um mínimo denominador comum com o PSD.

 

Como não pode deixar de ser, a forma de o CDS olhar para estas eleições do PSD depende muito de qual destas duas abordagens interessa seguir no futuro próximo: continuar a crescer à custa do PSD ou criar condições para uma aliança entre os dois partidos.

 

Porque na política privilegio a ideia de combate, inclino-me, naturalmente, para a primeira opção. Já tive oportunidade de dizer no CDS que o partido deve ir fazendo o seu caminho sozinho, pois apenas sozinho terá as condições ideais para propor aos eleitores um caminho diferente do que tem vindo a ser seguido nos últimos anos. 

 

Mas nem todos os tempos são tempos de falcão. Há alturas em que a luta política – que é sempre uma luta pelo poder, mesmo quando a estratégia usada põe de lado o acesso imediato aos centros a partir de onde este é exercido – tem que passar pelo compromisso. E esta, a meu ver, é uma delas.

 

Depois do resultado alcançado nas legislativas passadas, o CDS tornou-se incontornável para qualquer solução de governo alternativa ao PS e à esquerda. Nessa medida, quando chegar o momento de substituir o PS, o eleitorado dificilmente compreenderá que o CDS não faça o que estiver ao seu alcance para viabilizar tal alternativa. Goste-se ou não, os tempos vão obrigar a compromissos.

 

À luz desta grelha, Paulo Rangel é o melhor candidato. É o político com melhores condições para um entendimento pré ou pós eleitoral à direita. Tem categoria intelectual bastante para não sair diminuído ao lado de Paulo Portas e mais sólidos pontos de contacto ideológico e programático com o eleitor não socialista do que Pedro Passos Coelho. Até porque o pensamento de Passos Coelho é demasiado volátil, não se percebendo se assenta numa ideia de fundo para o país ou em emergências tácticas de ocasião. Para já não falar do facto de por entre os seus "ideólogos" estarem diversas figuras hostis a muito do eleitorado que vai ser necessário captar para voltar a ganhar eleições.

 

Mas Rangel traz também a promessa de ruptura. Uma ruptura que, para lá do carácter meramente retórico da expressão, se dirige a uma certa cultura política saída do 25 de Abril: dos infindáveis direitos adquiridos, tantos deles prejudiciais entre si; do Estado providencial, que, por a tudo e a todos querer acudir, acabará por deixar cair os mais fracos; da luta de classes e de culturas aplicada ao mais ínfimo aspecto da vida e do quotidiano; da Administração como prémio ou degrau de carreiras partidárias em vez de ofício para servir o país. Uma ruptura com uma mens politica que terá feito sentido no Portugal dos anos 80 mas que hoje, por ser obsoleta, é uma causa de estagnação. Uma ruptura com uma cultura que continua presente em muitas das estruturas orgânicas do PSD (e do CDS), e que por isso é também uma ruptura interior.

 

Não espero revoluções e cada vez sou mais céptico quanto à capacidade de os governos de pequenos países, como Portugal, mudarem o que quer que seja. Mas acredito que, com pequenos passos, é possível, quanto mais não seja, melhorar o ambiente político. As pessoas, depois, encarregar-se-ão ou não do resto. A eleição de Paulo Rangel seria um desses pequenos passos.

 

por Eduardo   "

 

 

 

E também reflectir sobre: a preferência do PS, aqui descrita por Nuno Gouveia, n' O Cachimbo de Magritte, em Socialistas preferem Passos Coelho.

 

 

Um dia depois: O CDS escolheu a primeira opção, a expansão. Com o apoio à recandidatura do actual Presidente, um dia antes de se saber quem vai liderar o PSD. Agora, só lhe falta mesmo que Passos Coelho ganhe... Passos Coelho será a sua via verde para a expansão garantida, à custa do eleitorado do PSD.

Pessoalmente, já não tenho de me preocupar com eleições presidenciais, por falta de candidatos. A minha única consolação é não ter contribuído para o cavaquismo nem para esta presidência medíocre. (E para que não haja dúvidas, o único em que votei e que chegou à Presidência foi Eanes em 76. De resto, vi sempre os meus candidatos ficarem em segundo...)

Até me admira que o próprio Presidente não se veja ao espelho: não tem perfil para o cargo, nem sequer motivação. Naquele Roteiro filmado na televisão, pelo seu quotidiano presidencial, pareciam um casal de reformados num Lar de 3ª idade... onde já não há qualquer energia vital, ânimo, inspiração... Como é que alguém, completamente amorfo e distanciado da realidade, pode inspirar um país? Está em perfeita sintonia com o país, isso sim! Só lhe falta mesmo tomar Prozac. Mas infelizmente (para nós) os políticos não se olham ao espelho, a não ser para fazer a barba e compor a gravata. Se assim fosse, poupavam-nos embaraços e pior!, não nos empatavam o futuro!

Enquanto vigorar no país esta cultura política absolutamente medíocre, baseada nas personagens e não nas ideias, em tácticas oportunistas e não em estratégias inteligentes, não vamos a lado nenhum... Foi o que disse ontem Medina Carreira, que enquanto não se renovar esta gente (ele fala assim) não temos futuro enquanto país. Sim, como disse Mota Pinto na AR: faltam-nos verdadeiros estadistas...

 

 

 

publicado às 13:29

O PEC, o filme: O Assalto ao Arranha-Céus Português

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 24.03.10

Confirma-se: no PEC não há lugar a negociações com a oposição. Paulo Portas di-lo, claramente: o CDS apresentou 13 medidas e foram todas rejeitadas. Pior ainda, pelos vistos nem foram consideradas. Este governo continua a governar como se ainda tivesse maioria absoluta. E esclareceu que o CDS será fiel  aos seus eleitores. Paulo Portas diz mais: que o país está a ser penalizado (na avaliação do risco de crédito), pelo ilusionismo político deste governo, que tentou iludir o valor real do défice antes das eleições legislativas, quando já se sabia que era muito mais elevado.

 

A linguagem do governo é a linguagem do poder, a da chantagem. Assim, vemos o ministro das Finanças a desdobrar-se em preocupações de última hora, os interesses do país... um consenso o mais alargado possível... E vemos o presidente da bancada do PS matraquear o mesmo discurso como se estivesse a regatear o preço de umas peúgas num mercado marroquino. Enfim, o cinismo destas personagens é incalculável.

 

Estas personagens andam a tratar da sua vidinha. O país nunca lhes interessou, a não ser para o esmifrar. O que interessou desde o início, depois do assalto ao arranha-céus, foi controlar o que ainda mexia e brilhava, a finança, os grandes negócios, as grandes corporações. Agora já só estão a tentar minimizar os danos antes de fechar a porta.

O PEC tem muito disso: o controle dos danos, do que não foi contado nem esclarecido, do que se passou nos bastidores do regime e que ficaria mal no poster publicitário. 

 

É isto que se passa, embora ninguém tenha o filme nas mãos. Bem, o filme teve de ser reconstituído cena a cena, com mais cenas cortadas do que as que passaram nas televisões nos anúncios e na propaganda. De qualquer modo, nenhum dos actores principais deste filme sai de forma airosa, não há aqui bons e maus, há só vilões. Porque tomar de assalto um arranha-céus e depois escravizar os reféns, e não apenas aqueles, também os seus descendentes até à 3ª geração... Isto depois de os anestesiar e domesticar, embalando-os com promessas falsas e finalmente, quando a realidade lhes caiu em cima (dos reféns entenda-se), que era tudo culpa da crise mundial...

 

O raciocínio de dedução dá imenso trabalho, imenso trabalho. Andam-se anos a observar, a analisar, a juntar as peças soltas... E, depois, subitamente, num relâmpago, faz-se luz: o puzzle fica completo.

Talvez a luz se tenha feito no momento em que se ouviu, no Expresso da Meia-Noite, o economista pegar na proposta das privatizações e dizer não ver ali qualquer lógica ou racionalidade... e que o número se aproxima muito do valor envolvido no auxílio aos bancos e na privatização do BPN... Ou quando ouvimos Medina Carreira dizer o mesmo, que não entende a racionalidade da proposta, que pouco vai reduzir o valor da percentagem da dívida em relação ao PIB... que ainda não conseguiu perceber a razão de tal proposta e, ainda por cima, privatizações sem qualquer critério, nem territorial, nem financeiro... e com as perdas dos dividendos... portanto, gestão danosa do bem público, é a única conclusão a tirar dali.

 

O governo sabe que não se aguenta. E nem lhe interessa continuar por muito mais tempo. O arranha-céus está praticamente destruído, já pouco há ali a fazer. A não ser que ainda possa assegurar os contratos rodoviários, ferroviários, aéreos, ou planetários, pouco mais há a fazer ali. Já se cuidaram dos buracos dos bancos, e ninguém viu nada de anormal, dos interesses das corporações, e ninguém viu nada de anormal... De resto, já está tudo esmifrado, empresas e cidadãos, pouco mais há a esmifrar... Já estamos na parte do filme em que chamaram os helicópteros para zarpar dali para fora. Uns para Bruxelas, outros para grandes empresas, outros ainda para universidades, e outros finalmente para a reforma...

 

Este filme, O Assalto ao Arranha-Céus Português, é apenas uma reconstituição baseada numa dedução lógica. Muitas pessoas já terão visto este filme. 

 

  

publicado às 19:14

O PEC: marca registada socialista e o fim dos alibis

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 20.03.10

A partir deste PEC, há ainda quem acredite no alibi da crise internacional, que aliás nem passava por aqui?

 

A partir do PEC, há ainda quem duvide que esta é a marca registada socialista: sugar os mais frágeis da sociedade, os pobres e os remediados, amnistiar os faltosos fiscais e proteger essa amálgama que vive  da máquina estatal?

A finança, em vez da economia?

A estagnação, em vez do crescimento?

A "nova elite", em vez do interesse geral?

A pobreza generalizada, em vez da racionalidade e da justiça?

As enormes diferenças sociais, em vez da coesão social?

 

Mas a verdade é que os eleitores voltaram a apostar em Setembro nesta grande mentira, mesmo depois de verificarem que as promessas de 2005 não tinham sido respeitadas. E se essas não foram respeitadas, o que os levou a acreditar de novo que estas últimas seriam?

É certo que a campanha decorreu sob outras grandes mentiras: o valor real do défice, da dívida pública, do desemprego, etc.

 

Com este PEC, o que é que o PS, ou antes, o governo (porque o PS já é apenas o governo e o governo, apenas o PM e o ministro das Finanças), quer esconder?

 

Ontem, no Expresso da Meia Noite, na Sic Notícias, um economista reparou que o valor que pretendem arrecadar com as privatizações se aproxima do valor gasto no apoio aos bancos em apuros e com a nacionalização do BPN. Conclusão do economista: este PEC nem sequer tem uma lógica racional, mas uma lista de soluções avulsas...

 

A meu ver, ainda haverá muito mais por desvendar, mas o que nos interessa agora é que as pessoas, que preferiram iludir-se mais uns tempos, como se isso fosse possível, vejam bem que o socialismo moderno, como se intitulam, não existe, é um equívoco, um perverso equívoco.

 

Nem sequer as boas intenções se lhes podem atribuir como atenuante para este PEC. Os socialistas modernaços mostraram a sua marca registada: adoram os ricos e famosos, aliás idolatram-nos e protegem-nos, e desprezam os pobres e remediados, escravizando-os com impostos.

E nem sequer a competência lhes podemos reconhecer como argumento: o PEC não é racional nem permite o crescimento da economia. É mais uma solução tecnocrata que agrada aos burocratas de Bruxelas. A sua aplicação leva metade do país à pobreza. Mas nada que incomode os burocratas...

 

Sim, que depois deste PEC as pessoas percebam finalmente o que é este socialismo modernaço, e criem anti-corpos que os protejam de próximas ilusões.

De qualquer modo, a ironia divina já está a funcionar: contrariamente ao que nos queriam convencer, não é o PSD que está em vias de extinção, mas o próprio PS. A dúvida é: será por implosão ou por desmantelamento? Ainda não sei, mas uma coisa já descobri desde ontem: será com grande estrondo.

 

 

 

Um dia depois: E tudo isto já estava inscrito no OE 2008. Bagão Félix alertou para esse facto e por diversas vezes... Ninguém reparou?

 

Mais sobre o PEC: D' O Cachimbo de Magritte, alguns posts muito interessantes: Vai haver crescimento nos próximos anos? Provavelmente não, independentemente do que fizermos, de Jorge Costa, e Sacrifícios em nome de quê?, de Paulo Marcelo.

 

E ainda, impor o PEC à oposição e ao país, com base na chantagem: Esta tentativa do ministro das Finanças, de colar os partidos da oposição a este PEC com o argumento A Bem da Nação para passarmos no teste dos burocratas de Bruxelas e das agências de rating, é mais uma chantagem inadmissível. Aliás, além do PM, este é um autêntico pro em chantagem.

Paulo Rangel já desmontou isto. Agora só espero que pelo menos o PSD não ceda a mais nenhuma... O PEC é deles, só deles, é a sequência natural da sua desgovernação de 5 anos, de ilusões e mentiras, levadas até à ilusão e mentira final. Tem a sua marca registada, que já estava inscrita no OE 2008. Quiseram governar sozinhos durante 4 anos e meio e agora não tomam nenhuma iniciativa sem querer colar os restantes partidos às suas invenções medíocres? Se querem negociar, aprendam a negociar. No entanto, duvido que este governo consiga aprender a negociar. Só sabe chantagear. E vitimizar-se. Lá fora utiliza operações de charme para vender o produto, cá dentro utiliza a chantagem e a vitimização.

 

 

publicado às 15:30

"O 'Memorando' e o 'Acordo': Semelhanças e Diferenças"

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 18.03.10

O sol ficou temporariamente encoberto, mas ainda assim arrisquei montar a esplanada. Desta vez a bebida terá de ser mais forte, não um simples sumo de laranja. É que o tema é deprimente: a impossibilidade de negociação com um governo que altera o roteiro a meio do processo, alterações profundas e não umas voltinhas ao texto. Nada que eu não pudesse prever, porque já espero tudo, antes e depois das eleições faz toda a diferença para o PS.

Sim, hoje a voz dissonante vem da Educação, Paulo Guinote n' A Educação do meu Umbigo.O post é longo, mas irei tentar destacar as partes fundamentais. Para já, avanço com uma das suas conclusões mais interessantes: o governo está reduzido ao PM e ao ministro das Finanças. E toda aquela autonomia que a ministra da Educação nos quis convencer que tinha, verifica-se exactamente o mesmo que se verifica com os outros ministros. Quem manda ali é o PM e o ministro das Finanças.

 

Aí vai este O 'Memorando' e o 'Acordo': Semelhanças e Diferenças:

 

"  Ainda é cedo para avaliar a extensão dos danos ou a capacidade para reverter uma situação que se apresenta com contornos muito gravosos para a classe docente.

A mudança de quadros para mapas de pessoal, o fim dos concursos de colocação de professores, a mobilidade por «cedência de interesse público» ou mesmo a possibilidade de funcionários públicos passarem a dar aulas ao saírem dos seus serviços na sequência dessa mesma mobilidade vão tornar uma situação que se esperava melhorar, ainda pior.

E isto surge algumas semanas depois de um acordo de princípios apresentado pelo ME como uma vitória política e pelos sindicatos signatários como uma espécie de gambito, ou de uma vitória mitigada mas instrumental e táctica ao serviço de uma estratégia de recuperação lenta de direitos perdidos.

Se bem nos lembrarmos, há traços comuns ao memorando do entendimento de Abril de 2008 e o acordo de princípios de 2010, em especial o facto de ME e sindicatos terem chegado nos dois momentos a acordo quanto à necessidade de acalmar as massas e as estabilizar e fazer voltar à mesa institucional das negociações a condução da resolução do conflito. E também são elementos comuns a adesão crítica ao documento de muitos de nós e a aoposição declarada de outros, em especial de alguns movimentos de professores.

O que aconteceu em 2008 já sabemos. Do memorando passou-se rapidamente ao simplex1 em forma de decreto regulamentar perante as reservas ou críticas da maioria dos docentes e tudo acabou na rua outra vez, com as organizações sindicais a rasgarem o memorando perante o risco de se representarem a si mesmas. O ME apresentou-se, no ano e meio seguinte, como vítima de uma traição às mãos dos sindicatos, clamando ter cumprido de forma integral o tal memorando.

Mas se há por aqui semelhanças com o que aconteceu agora em Janeiro deste ano, há mais diferenças.

Apontaria desde logo três muito fortes:

  • O memorando foi estabelecido em clima de forma animosidade e desconfiança entre as partes signatárias, enquanto o acordo pareceu ser um acto desejado por ambas as partes, imbuídas de um encantamento pré-nupcial e antecipatório da noite de núpcias, no sentido mais tradicional e virginal do termo.
  • O memorando destinava-se a estabelecer um regime transitório, no sentido de uma posterior evisão do ECD, enquanto o acordo visou a revisão do ECD e a criação de um novo regime, não transitório, para a classe docente.
  • Entre o memorando e a publicação do simplex não houve grandes alterações nos termos acordados. Agora, depois de várias rondas negociais inconclusivas, surgem elementos novos e claramente perturbadores na proposta ministerial

Mas há mais diferenças, estas mais específicas das movimentações dos professores:

  • O memorando foi assinado por todas as organizações sindicais unidas numa plataforma.
  • Em Abril de 2008, a contestação dos docentes estava no refluxo de uma manifestação que se considerava irrepetível, mas que ainda tinha margem de evolução, como se viu. Agora não sabemos exactamente como estamos.

Isto significa que podemos estar perante uma situação bem diferente da que se viveu a partir de Maio de 2008, sem que isso signifique um quadro muito claro quanto ao que é possível ou não vir a acontecer.

  • A introdução de elementos novos nesta fase da negociação – em particular depois de terem existido manobras de diversão para atrasar todo este processo – dá toda a margem de manobra para os sindicatos abandonarem unilateralmente as negociações. Aliás, se isto não fosse política, perante o que está em cima da mesa, seria a atitude a tomar por quem encarasse a vida pública com regras de decência parecidas ás que devem nortear as relações pessoais de boa fé.
  • O abandono da mesa das negociações, ou mesmo lá permanecendo, implica a necessidade de ter um plano B ou C para conduzir as coisas a partir daqui. E o que se percebe é que, do topo à base, há uma enorme indefinição, para não dizer desorientação quanto ao que fazer. Alguns movimentos, mais especificamente o PROmova, estão numa estratégia de convergência de vontades e contagem de espingardas, mas sem que se perceba exactamente para onde querem ir, tirando os braços do Paulo Rangel. O que neste momento, pode ser ambíguo para quem criticou os sindicatos de instrumentalização político-partidária.
  • O grau de mobilização da classe docente é neste momento uma incógnita. De uma coisa estou certo, a fraquíssima adesão à prematura greve da Função Pública indicia um nível ainda baixo de amadurecimento de uma nova fase de indignação e contestação activa e quer-me fazer crer que também está relacionada com uma evidente preferência por uma movimentação de grupo – corporativa na linguagem de alguns, que eu assumo sem problemas cada vez mais – em defesa da sua especificidade em vez de uma abordagem frentista desta questão.

Perante isto, o que fazer?

Antes de mais, a estratégia que sempre achei a mais correcta: informar, debater, discutir, andar à pedrada uns com os outros se necessário, mas tomar decisões de forma informada e consciente.

Este é um momento particularmente grave, em que aos olhos de todos se percebeu em definitivo o que um dia escrevi: o ministro da Educação é José Sócrates. O verdadeiro secretário de Estado é Teixeira dos Santos. Os outros apenas estão ali porque há cadeiras por ocupar. Nuns casos para efeitos de consumo mediático, em outros de modo instrumental, dando-lhes a sensação que até poderiam fazer qualquer coisa.

As coisas estão de novo do lado dos professores. Não esperam – de modo algum, mas mesmo de modo algum – qualquer apoio fácil ou mediano nestas questões por parte de qualquer dos candidatos a líder do PSD. Podem oferecer autoridade e alguma carga simbólica de apoio aos professores nas escolas e sala de aula – e isso é importante – mas muito pouco mais. À esquerda teremos propostas de apoio concretas mas com a quase certeza de esbarrarem em bloqueios parlamentares alimentados por abstenções à direita do PS.

Está tudo a regressar de novo às nossas mãos. Para o bem e o mal, estão cansadas.

(...)

Há que saber observar, há que saber medir com cuidado o ambiente nas escolas. Há que voltar quase ao início. Mas há que não voltar ao passado. Seja ao mais previsível, ditado ao fracasso, seja a um mais recente, menos antecipável, mas já conhecido também. Porque não há fórmulas mágicas.

Que assim seja.

Os dados voltam a estar lançados.  "

 

 

 

publicado às 20:26

Um dia paradoxal num país paradoxal

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 17.03.10

A esplanada já poderá ser de novo arrumada cá fora, o sol voltou, o tempo amenizou-se e já lembra a Primavera. 

Nos intervalos do transporte de mesinhas, cadeiras e guarda-sóis, fui preparando mentalmente o post de hoje, que vai daqui deste cantinho. Aí em cima à direita continua o bébé que nunca tive coragem de retirar desde que me saiu juntamente com o padrão "amarelinho" do Sapo. Este blogue já não é propriamente bébé, já tem quase 3 anos, já papagueia insolente, já faz perguntas impertinentes, mas o bébé fica.

Enquanto arrumava a esplanada cá fora, dizia eu, preparei o post para hoje, sobre um dia paradoxal num pais paradoxal. Aí vai:

 

 

Ontem liguei a televisão à hora de almoço e apanhei por mero acaso uma notícia surpreendente: um jovem conduz uma carrinha-biblioteca, quinzenalmente, até uma aldeia isolada do interior, pelo que percebi no concelho de Proença-a-Nova.

Os habitantes da aldeia são maioritariamente reformados, pelo que também percebi, mas isso numa aldeia não quer dizer que não estejam activos, geralmente em trabalhos agrícolas. Entrevistados pela jornalista vão dizendo que a biblioteca é como o mundo que lhes chega ali... sentem-se menos sozinhos... gosto muito de ler... ou... como não percebo muito bem as letras, folheio as revistas e vejo as imagens, olhe aqui, é muito bonita...

Vivem de tal forma isolados que a visita do jovem na carrinha-biblioteca é esperada ansiosamente e com imensa alegria. O jovem revela aquela motivação que já falta a muitos adultos, aquele prazer de colaborar num projecto e nem sei se a ideia foi sua, essa consciência de um colectivo, de uma comunidade. E é muito provável que fique por lá a conversar toda a tarde, que lhes dê informações e sugestões de livros ou revistas.

Dei por mim a sentir uma comoção misturada com alegria, estranhas sensações que a televisão raramente me provoca. Foi com voz trémula que comentei: Que ideia giríssima! Ainda há quem tenha ideias destas!

 

O mesmo não me iria acontecer com as notícias da noite. Foi logo depois de jantar. Uma sala em azul, vários participantes com os rostos iluminados pela luz azulada, sentados como numa sala de cinema, parece que vão ver o avatar, pensei, só lhes falta os óculos 3D, e uma voz com entoação de apresentador de circo, anuncia o nome do primeiro orador, o primeiro-ministro de Portugal e, ao fazê-lo, troca-lhe o nome.

Fiquei atónita, devo ter ficado de olhos esbugalhados e de boca aberta, mas o orador levantou-se, apesar do burburinho de fundo e de alguns risos abafados, e começou o discurso. Atrás de si, em letras luminosas no écran publicitário, lia-se NOVAS ENERGIAS. Mudei de canal, mas o efeito-surpresa ficou ainda por uns minutos. 

Só pode ser ironia divina, pensei, o apresentador parecia habituado a anunciar artistas de circo ou enternainers...

 

Que dia paradoxal realmente... dois mundos diversos, um real outro virtual, duas vidas diversas, uma real outra virtual.

O jovem vive no mundo real, e leva o mundo a uma aldeia isolada e esquecida no mapa. É esperado ansiosamente pela aldeia, ávida do mundo. Este jovem é a ponte entre o mundo e a aldeia, liga pessoas e ideias. Comunica e facilita a comunicação.

O PM desse mesmo país vive no mundo virtual, de salas iluminadas à espera do filme, e o filme é sempre sobre outro planeta, onde criaturinhas azuis se movimentam a energias renováveis, desligadas do resto do mapa que esse mapa não interessa.

 

Só depois percebi. O país é paradoxal, é verdade. Porque, apesar de tudo, gosta da ficção, do avatar. Mesmo que não o perceba, escolheu-o, apostou nele. Mas em cada um destes mundos, e destas vidas, há uma lógica intrínseca. E é aqui que entra a ironia divina.

 

A lógica da vida real, com os pés no chão e os olhos nos seus semelhantes, facilita naturalmente uma comunicação de troca de ideias e de informações, e o seu resultado é o respeito mútuo próprio de relações significativas, a alegria do encontro ainda que quinzenal, e a expectativa ansiosa pela próxima visita. 

A lógica da vida virtual, com os pés nas nuvens e os olhos no écran publicitário, facilita a comunicação mecânica, sem alma, repetitiva, impessoal, e dá este resultado: o próprio apresentador esquece-se que não está no circo nem num qualquer espectáculo, e troca o nome de um primeiro-ministro.

 

       

publicado às 12:59

"Faltar à verdade..."

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 16.03.10

Hoje a voz dissonante vem d' O Insurgente, e analisa um dos dilemas comunicacionais mais difíceis na política: como propor um projecto ao eleitorado, sem faltar à verdade, quando este parece preferir promessas irrealistas? Desmonta ainda a influência negativa desta cultura socialista em que a mentira já se infiltrou de uma forma tão perversa nessa comunicação que já ninguém se preocupa com isso.

 

Elisabete Joaquim parte de uma crónica de João Pereira Coutinho no "Correio da Manhã" online de 14 de Março: 

  

Quantos dias terá o Congresso do PSD? Pessoalmente, o Congresso podia acabar poucas horas depois de começar. Com o discurso de Manuela Ferreira Leite. O que virá a seguir será com certeza babugem eleitoralista e inútil.

(...)
O lado trágico está aqui: as eleições não se ganham com verdades; ganham-se com mentiras porque os portugueses preferem-nas. E se existiu erro no consulado de Ferreira Leite foi o de sobrevalorizar a maturidade dos portugueses; a crença ingénua de que era possível falar para adultos. Não é. Para regressar ao poder, não basta ao PSD eleger um líder e esperar que o eng. Sócrates caia da cadeira. É preciso nivelar o discurso com a idade mental do eleitorado. "

 

E constrói a sua análise a partir daí:

 

"  Gostaria de poder discordar da última linha escrita por João Pereira Coutinho. Discordar que é necessário mentir, enganar, dissimular, ou o muito em voga faltar à verdade, para ganhar eleições. Discordar que os portugueses gostam de ser tratados como mentecaptos incapazes de sair da esfera consequencialista do curto prazo. Mas pelo resultado das últimas eleições e pelas estimativas sobre uma eventual nova eleição, não tenho como discordar. Mas posso discordar num ponto. Parece-me que a preocupação de João Pereira Coutinho é vã quanto ao receio de que a oposição a Sócrates não perceba que tem de nivelar o discurso para o vencer: a tendência actual é de embrulhar proto-conteúdo com farinha retórica, a ver se os portugueses engolem e nem dão por ela, que quando estiverem a digerir “já teremos o poder no papo”.

É este o maior legado de Sócrates e a lição que os profissionais da política retiram da derrota de Ferreira Leite: as ideias, a verdade, o diagnóstico, são ferramentas que atrapalham o poder. A Era do poder pós-Sócrates caracteriza-se por essa crença de que a ideologia (como um sistema coerente de ideias) já não tem lugar no discurso político, até porque as ideias têm essa perigosa característica de poderem ser avaliadas, criticadas, e refutadas. Lugares comuns, faltas à verdade que não são mentira mas também não são realidade, coisas que não estão à esquerda mas que também não estão à direita, coisas que não são nada de concreto pois o não concreto é hoje o caminho mais seguro para o poder. Nomear, sequer, conceitos referentes a ideologia é tabu. Quer para criticar a ideologia vigente, quer para apresentar uma que seja alternativa.

Mas há uma consequência, essa sim verdadeiramente perigosa, nessa técnica de esterilização do ideológico na política: é que a política é por natureza a prática de uma sistema de ideias. É ilusão pensar que pode haver acção política sem guia ideológico, um rumo sem um objectivo de chegada. É ilusão pensar que tal coisa como o “realismo político” ou o “pragmatismo político” não se senta no cadeirão invisível da ideologia política. E é perigoso no sentido em que esse ideológico disfarçado (que existe ainda, mas nunca verbalizado pelos políticos nem nunca consciencializado pelo eleitorado) fica imune à avaliação, crítica e rejeição que apenas um debate de ideias possibilita. As ferramentas de combate político afunilam-se progressivamente na injúria, no ataque pessoal, na descredibilizaçõ do adversário, esvaziando-se cada vez mais de qualquer tipo de conteúdo intelectual.

Não censuro os jornais por apresentarem um resumo muito pobre daquilo que no geral foi dito durante o XXXII Congresso PSD. Intrigas, personificação do mal na figura de Sócrates, personificação do bem noutra figura, algumas propostas avulso mas nada de ideias. É de salientar que mesmo num pavilhão que, à partida, reunia no seu interior um eleitorado com um património ideológico comum, houve pudor ou desvalorização do debate de ideias. E não se pense que isso se deveu ao facto de haver um entendimentos espontâneo quanto a questões ideológicas. Basta recordar as sessões no Instituto Sá Carneiro, numas das raras vezes em que há exposição e debate de ideias no interior do PSD, que puseram a nu a profundidade dos desencontros e confrontos ideológicos no interior do partido. Mas não me parece que seja isso que interessa ao PSD explorar, que neste momento se divide em confrontos internos que nada têm que ver com a defesa de ideias.

De um ponto de vista interno ao PSD é pena que o próprio partido desperdice o legado de Ferreira Leite (verbalmente ou na prática). De um ponto de vista externo é o próprio país que perde com esta esterilização do intelectual em que o “faltar à verdade” inaugura um novo tipo de negação da realidade: não aquele que a falseia e que por isso mente, mas simplesmente aquele que se demite de falar nela directamente

 


 

publicado às 17:16

"Entre Belém e São Bento..."

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 10.03.10

Este sol veio iluminar tudo por aqui. Apesar do frio, abri todas as janelas e até montei a esplanada. Por enquanto, foi apenas um café forte, mas em breve irei atirar-me a uma bebida mais inspiradora, em homenagem às vozes livres da blogosfera, especialmente às que por aqui têm passado e ainda irão passar...

 

Hoje vem aqui de novo uma dessas vozes, sempre emotiva e inspirada. Comunica connosco há mais tempo no seu Sobre o Tempo Que Passa, mas também no Albergue Espanhol.  Neste post, Entre Belém e São Bento, não há portas abertas... José Adelino Maltez diz-nos o essencial sobre o estado do país e da gestão do poder. 

 

Aqui vai:

 

 

Entre Belém e São Bento, não há portas abertas...

por José Adelino Maltez

 

Ontem foi o quarto aniversário do cavaquismo presidencial. Em tudo o que ele e a primeira dama vão dizendo, em tudo o que cada um de nós disser não há ponto sem nó. Tem em vista a recandidatura do dito. Preferia que servisse sem esse porquê.

 

Portugal não é a Grécia. Ainda não vendemos as Berlengas, as Desertas e as Selvagens. Mas já concessionámos parte do Terreiro do Paço e ainda temos essa estupidez do conceito de domínio público marítimo, que impede a venda de praias a lotes... Assim, não demorará muito que se atinja o regime do "onde dollar beach" para cada acesso da chamada "classe média" que somos nós todos...

 

Quando o velho rei do Congo ouviu a leitura das nossas Ordenações, na primeira viagem que fizemos para as bandas da foz do Zaire, terá dito ao comandante lusitano: "em Portugal também é crime alguém pôr os pés no chão?". Julgo que a imaginação fiscal do burocrata vai entrar no delírio da taxação, ao estilo do uso dos isqueiros ou do mero acesso ao "Google" e ao "Facebook", esses privilégios da classe média...

 

Quem gasta pelo mau uso e prostitui pelo abuso a máquina do estadão já não está habilitado a fazer com que o estado a que chegámos volte a ser um Estado ao serviço da república, ou da comunidade, da comunidade das coisas que se amam, a que damos do belo nome de Portugal. Não nos reformem mais, reformem-se antecipadamente. Precisais de uma valentíssima e reverendíssima reforma, bem penalizada...

 

Os filhos do PREC viraram patrões do PEC, neste "processo em curso" que ninguém sabe onde vai dar, mas que terá sido negociado, nas nossas costas, com os eurocratas e os consultores da geofinança, retendo, do PREC, os amanhãs que cantam, e dizendo sempre que o inferno são os outros, enquanto os mafarricos do presente nos vão tostando em "simplex" do paga agora, protesta depois.

 

Preferia que o Zé Povinho mantivesse o sentido do gesto! Que desse o "Toma" a quem não podemos "Fiar"...

 

Ontem foi dia da belenização de Cavaco, com a primeira "psico" para a futura injecção fiscal que não era aumento de impostos. Depois do PREC, o PEC, ou a pecuária política sempre em curso, nesta "animal farm", onde somos todos iguais, mas há alguns mais iguais do que outro...

 

Entre Aníbal e José, foram mais os anos de cooperação estratégica e de estado de graça, em que tudo foi porreiro, mesmo sem o pá. Depois foi aquela coisa dos espiões em autogestão com as respectivas teorias da conspiração, confirmando-se como entre São Bento e os arredores da gamela da Ajuda, houve um interregno de regime de assessores, "boys" e "boomerangs" sobre telhados de vidro...

 

José e Aníbal são siameses. Até dizem que Sócrates é o Cavaco do PS. Ambos comungam do mesmo preconceito "cainesiano" de um estadão assistencialista, intervencionista e clientelar, a que dão o nome de social-democracia, onde as mulheres são a consciência de esquerda intelectualóide...

 

Esta ficção da classe dita média vive do pingue-pongue valorativo, marcado pelo utilitarismo do homem de sucesso. Um dia pode ser fracturante, no outro catolaico, numa democracia-cristã que procura benzer-se com memória de Guterres, discurso de Silva Pereira ou encontros com o Padre Seabra e Dom Policarpo...

 

O tal estado a que chegámos tem, de um lado, Armando Vara e, do outro, Manuel Dias Loureiro. Por outras palavras, são Guizot, têm como lema o "enriquecei" da sociedade de casino dos fundos estruturais, assente em titulares honestos e incorruptíveis que usam desonestos como pés de barro, de acordo com aquele velho maquiavelismo, segundo o qual as árvores precisam de estrume.

 

Dez anos de cavaquistão betuminoso, passaram para o ciclo das energias renováveis, sempre com sacos azuis que restauraram a casta capitaleira e banco-burocrática, conforme as denúncias de Antero de Quental sobre o crepúsculo do rotativismo devorista da monarquia liberal, a que juntámos a ditadura da incompetência da I República, com alternâncias ilusórias, onde os bonzos vencem sempre, embora animem a fantochada dos endireitas e dos canhotos.

 

Se um prefere a gestão dos silêncios, outro é herdeiro da picareta falante, mantendo os monstros das políticas públicas de educação e de saúde e o desperdício de muitas tentações de intervencionismo propagandístico, nomeadamente no alinhamento da comunicação social pública e privada, com os inevitáveis clientelismos e engenharias de cunhas e subsídios...

 

Ambos mantiveram vacas sagradas constitucionais, como, por exemplo a divisão das magistraturas, enquanto o perfil politiqueiro os levou a provocar esta propaganda que não parece propaganda, dando uma imagem de políticos antipolíticos...  "

 

 

publicado às 20:29


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